VOLTAR PARA NOTÍCIAS 06 de outubro de 2026

“Você é o único representante do seu sonho”: Gabriel transforma vivências em caminhos para a inclusão

Estudante de Psicologia do UNISAL Lorena, fala sobre acessibilidade, vida acadêmica, esporte e o sonho de levar a Psicologia às periferias

“Eu me chamo Gabriel Augusto de Oliveira Quirino, sou um homem preto, uma pessoa com deficiência visual e sou estudante do curso de Psicologia do UNISAL.”

É assim que Gabriel escolhe se apresentar. E é também a partir dessas palavras que começa uma conversa sobre sonhos, pertencimento, inclusão e, principalmente, sobre a possibilidade de transformar vivências em novos caminhos.

No 4º ano do curso de Psicologia, Gabriel sabe onde quer chegar e, sobretudo, quem deseja alcançar. Seu objetivo é fazer da profissão uma ferramenta de transformação, contribuindo para que a Psicologia seja cada vez mais acessível às pessoas com deficiência e também esteja presente nas periferias.

Mas sua trajetória vai muito além da sala de aula. Gabriel já foi atleta, rapper e encontrou no esporte mais uma forma de superar desafios. Em 2026, foi um dos destaques da Corrida de Rua do UNISAL, realizada durante a Semana de Educação Física e aberta à comunidade. Depois de um período longe das competições, cruzar a linha de chegada significou mais do que completar um percurso: representou reencontro, superação e, para quem acompanhava de perto, inspiração.

Ao falar sobre sua experiência na universidade, Gabriel não romantiza os desafios. Pelo contrário: reconhece as barreiras, aponta aquilo que ainda precisa avançar e destaca algo essencial quando se fala em inclusão: não basta garantir o acesso, é preciso criar condições para a permanência.

Para a coordenadora do curso de Psicologia do UNISAL Lorena, Prof.ª Ma. Márcia Rubez, a trajetória de Gabriel também tem proporcionado aprendizados ao corpo docente e à coordenação. Desde a chegada do estudante, a escuta tem sido o ponto de partida para compreender quais adaptações são necessárias em cada etapa de sua formação.

“Desde o princípio, assim que o Gabriel chegou ao curso de Psicologia, tivemos o cuidado de primeiro ouvir as experiências dele e colocá-lo como protagonista. Foi o próprio Gabriel quem nos mostrou o que seria necessário em termos de adaptações em sala de aula, nos testes psicológicos, no laboratório, na prova integrada e em outros momentos da vida acadêmica. Essa escuta e essa acolhida foram de extrema importância”, destaca Márcia.

Mais do que promover adaptações em estruturas e atividades, esse processo também tem contribuído para ampliar o olhar sobre a inclusão dentro do próprio curso. Para a coordenadora, compreender as necessidades de cada estudante passa, necessariamente, por ouvir suas vivências e considerar sua realidade.

“O Gabriel é um aluno muito ativo, envolvido com os colegas e sempre disposto a participar. Tem sido uma experiência muito rica para o corpo docente e para a coordenação, porque aprendemos muito com ele no dia a dia. A realidade tem sido construída a partir dele e das experiências dele. É a partir dessa escuta que estamos construindo e fazendo as adaptações necessárias”, completa.

Em uma conversa aberta e sensível, Gabriel fala sobre a vida acadêmica, os sonhos para depois da graduação, acessibilidade, representatividade e sua relação com o esporte.

Acompanhe a entrevista:

Como está sendo a sua vida acadêmica no UNISAL?

Está sendo um processo muito bacana, principalmente pela acolhida e pela oportunidade de se manter. Eu acho que o foco inicial, quando a gente ingressa dentro da universidade, nunca é sobre estar, é sempre sobre se manter. Então, isso para mim está sendo muito relevante e está sendo prazeroso poder viver esse momento durante esses quatro anos de vida acadêmica.

Quais são os seus objetivos acadêmicos e profissionais?

Primeiro, após a formação, quero ter a oportunidade de trabalhar em uma clínica racializada e também voltada para pessoas com deficiência. E também descentralizar. Eu acho que a Psicologia é uma ferramenta que tem que chegar à periferia e eu quero ser esse porta-voz. Então, esses são os objetivos profissionais que eu tenho.

Como você se sente em relação à acessibilidade e à inclusão no UNISAL?

Eu acredito que, com a minha chegada, algumas coisas foram transformadas. Tem aquele processo de que, quando você é um dos primeiros, você pavimenta para que outras pessoas possam usufruir daquilo que foi construído em coletividade. Então, acho que o piso tátil foi algo muito relevante, tanto para a minha permanência quanto para que outras pessoas também possam entender a importância de trabalhar a inclusão e sair do lado teórico para ir ao lado prático. Vejo que isso está acontecendo dentro da universidade.

Em quais momentos você percebe que a inclusão acontece de maneira efetiva?

Eu acredito que, no momento em que a coordenação chega para conversar e entender a minha necessidade, essa é a inclusão acontecendo na prática. Então, acho que isso, para mim, é o mais relevante. Quando é preciso adaptar uma prova ou alguma coisa para que eu me sinta incluído, esse é o momento em que a acessibilidade e a inclusão acontecem de uma maneira muito positiva dentro da universidade.

O que motivou a escolha pelo curso de Psicologia e pelo UNISAL?

Primeiro, pela relevância do nome. Quando se fala de UNISAL, não é uma referência só para Lorena, mas acredito que para toda a região. E, quando a gente chega a um curso de relevância como Psicologia, sabendo que o UNISAL nos proporciona sair daqui com um gabarito importante e necessário para poder encarar a realidade lá fora, isso foi preponderante para eu escolher o UNISAL.

O que você gostaria que as pessoas entendessem sobre deficiência visual e inclusão?

Eu acho que as pessoas precisam entender que a gente tem que plantar empatia para poder incluir. E, quando se fala da pessoa com deficiência, nada é melhor do que respeitar o lugar de fala. Então, se você tiver curiosidade de saber alguma coisa ou quiser entender algo sobre a pessoa com deficiência e tiver a oportunidade de perguntar para ela, pergunte. Porque quem melhor para conhecer a nossa vida e a nossa história do que nós mesmos?

É aquele processo de furar a bolha. Muitas vezes, a gente fica preso em bolhas e, quando a pessoa não se permite dar o primeiro passo até a gente, acho que a mudança não acontece.

Você participou da Corrida de Rua do UNISAL. Como foi essa experiência e a preparação para voltar a competir?

Primeiro, teve o preparo psicológico. Como eu falei, estava há muito tempo sem poder competir e, primeiro, você coloca na sua mente se vai ser capaz de chegar até o final.

Segundo, teve o acolhimento. Conforme fui passando pelos obstáculos, as pessoas que estavam vendo o percurso que eu estava fazendo se identificaram, então isso foi bem marcante. E eu acho que é o processo mesmo de você incluir outras pessoas.

Dentro desse diálogo todo, outras pessoas com deficiência se interessaram. É o que eu sempre falo: a gente nunca começa uma casa pelo telhado. A gente tem que entender que o alicerce é necessário como um processo de continuidade.

Para finalizar, que recado você daria a uma pessoa com deficiência que sonha em ingressar no Ensino Superior, mas encontra barreiras pelo caminho?

Eu acredito que tem uma frase que marca bastante aquilo que eu penso, sem romantizar a questão de ser uma pessoa com deficiência: “Você é o único representante do seu sonho na face da Terra”.

Ou seja, ninguém vai sonhar por você, ninguém vai lutar se não for você. E sonhar independe de você ser ou não uma pessoa com deficiência. Eu acho que sonhar é inerente ao ser humano.

Então, é isso: se você tiver um sonho, corra atrás, porque, se você correr atrás, uma hora você chega na frente.

O UNISAL acredita que a educação superior deve ser acessível, acolhedora e capaz de promover oportunidades de aprendizagem para todos. Por isso, foram desenvolvidas ações permanentes voltadas à acessibilidade e à inclusão, buscando garantir que cada estudante possa participar plenamente da vida acadêmica, com respeito às suas características, potencialidades e necessidades específicas.

Clique aqui e conheça o nosso Regulamento de acessibilidade

Para saber mais sobre o curso de psicologia no UNISAL e as diferentes formas de ingresso, acesse: https://vestibular.unisal.edu.br/

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