“Todos nós somos capazes de fazer coisas incríveis, sem exceção e sem diferença. Existe beleza nas imperfeições.”
A frase é de Marcos Henrique Luiz da Silva, estudante do 10º semestre de Arquitetura e Urbanismo do UNISAL Americana. Mas poderia ser também o ponto de partida para compreender sua história. Aos poucos, entre projetos, descobertas, desafios e aprendizados, Marcos foi construindo uma trajetória que revela não apenas sua paixão pela Arquitetura, mas também a importância de olhar para as diferenças com sensibilidade, respeito e acolhimento.
Autista, Marcos está prestes a concluir uma etapa importante de sua vida. E, assim como acontece em qualquer projeto arquitetônico, sua caminhada até aqui não foi feita apenas de linhas retas. Houve obstáculos, mudanças de percurso, conquistas e, sobretudo, a necessidade de encontrar seu próprio espaço.
Nascido em Americana, Marcos sempre demonstrou interesse pelas Ciências Exatas, especialmente pela Matemática, além de desenvolver habilidades com edição de vídeos e criação de sites. A curiosidade pela Arquitetura, entretanto, surgiu de maneira pouco convencional: por meio dos videogames.
Ainda criança, passava horas jogando Minecraft no Xbox 360, construindo escolas, estádios de futebol e outras estruturas que ganhavam forma na tela. Mais tarde, jogos como The Sims também ajudaram a alimentar sua criatividade.
Foi nesse universo virtual, onde a imaginação encontra possibilidades quase infinitas, que nasceu o interesse por uma profissão dedicada a projetar espaços reais.
A passagem do Ensino Médio para a universidade aconteceu sem interrupções. Logo após concluir a educação básica, Marcos conquistou sua vaga no UNISAL, uma realização que considera especialmente significativa. O ingresso no ensino superior, porém, também trouxe desafios que ultrapassavam as exigências acadêmicas.
Os desafios que nem sempre são visíveis

Marcos recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda na infância. Ao falar sobre sua experiência, explica que algumas características do autismo fazem parte de sua rotina, especialmente na comunicação, na interpretação de determinadas situações sociais e na sensibilidade a estímulos sonoros.
Compreender metáforas, ironias ou mensagens transmitidas pela linguagem corporal, por exemplo, nem sempre é simples. Falar em público também representa um desafio. Ambientes barulhentos e com muitas pessoas podem provocar desconforto e sobrecarga sensorial.
Por outro lado, Marcos reconhece que seus interesses intensos por determinados assuntos contribuíram para desenvolver conhecimentos e habilidades em diferentes áreas. Ainda criança, interessava-se por astronomia, dinossauros, origami, cubos mágicos, matemática e sistemas ferroviários.
Uma dessas experiências resultou em uma conquista pessoal: aprender inglês de maneira praticamente autodidata. O aprendizado começou por volta dos dez anos, enquanto jogava Roblox e interagia com pessoas de outros países. Com o tempo, ampliou seus conhecimentos por meio de vídeos e conteúdos na internet.
Mas, para Marcos, uma das maiores dificuldades não está necessariamente no aprendizado dos conteúdos acadêmicos. Está nas relações humanas.
A chegada à universidade representou uma mudança significativa em sua rotina. Apesar de ter construído amizades durante a educação básica, ele relata que encontrou dificuldades para estabelecer vínculos com os colegas ao longo da graduação.
“Já estou no meu último semestre e eu sinto que eu não consegui fazer nenhuma interação social importante durante meu curso”, compartilha.
O depoimento traz uma reflexão importante: a inclusão não se resume à possibilidade de frequentar uma sala de aula ou acessar os espaços físicos de uma instituição. Ela também envolve pertencimento, convivência e oportunidades reais de participação.
Marcos também reconhece os avanços do UNISAL Americana na promoção da acessibilidade e do acolhimento aos estudantes. Para ele, a estrutura do Campus Maria Auxiliadora oferece recursos importantes, como os espaços de descompressão disponíveis na biblioteca, que contribuem para o bem-estar de pessoas com sensibilidades sensoriais.
“O próprio campus do UNISAL é acessível, incluindo a biblioteca com espaços de descompressão”, destaca.
Apesar de reconhecer esses recursos e o apoio recebido dos professores e coordenadores, Marcos acredita que a inclusão precisa ir além da estrutura física. Para ele, um dos principais desafios ainda está na construção de vínculos e na integração social entre os estudantes.
“Sempre tive o apoio dos professores e coordenadores, que conhecem meu diagnóstico e compreendem as dificuldades que enfrento. Mas, se pudesse deixar um recado, seria para toda a comunidade acadêmica: incluam as pessoas com TEA nas conversas, perguntem sobre seus interesses, interajam. Mesmo que sejamos mais introvertidos, também queremos fazer parte, criar vínculos e nos sentir acolhidos”, compartilha Marcos.
Seu relato reforça que uma universidade verdadeiramente inclusiva não se constrói apenas com espaços acessíveis, mas também por meio da escuta, do respeito às diferenças e das oportunidades de convivência e pertencimento.
Quando o conhecimento se transforma em contribuição

Se a convivência social trouxe desafios, foi também durante a graduação que Marcos encontrou oportunidades de colocar suas habilidades em prática e contribuir com o aprendizado de outras pessoas.
Uma das experiências mais marcantes aconteceu durante uma atividade acadêmica envolvendo o Plano Diretor de Americana. Ao consultar o documento disponibilizado na internet, percebeu que a ausência de formatação dificultava a leitura e a localização das informações.
Utilizando seus conhecimentos em desenvolvimento de sites, decidiu reorganizar o conteúdo em uma página na internet, tornando a consulta mais prática e acessível.
O trabalho, realizado ao longo de alguns dias, passou a auxiliar estudantes de Arquitetura e Urbanismo, inclusive de outros semestres.
A iniciativa também chegou ao conhecimento de uma profissional da Prefeitura de Americana, durante uma palestra sobre o Plano Diretor. Marcos apresentou o projeto e compartilhou sugestões que, segundo ele, foram recebidas positivamente.
Em outra oportunidade, utilizou suas habilidades digitais para colaborar com um Projeto Integrador dedicado à análise dos patrimônios culturais de Americana, contribuindo com o trabalho desenvolvido por sua turma.
São experiências que demonstram como diferentes conhecimentos podem se complementar e como a universidade também pode ser um espaço para reconhecer talentos, incentivar iniciativas e valorizar as contribuições individuais.
Essa dedicação também é reconhecida pelos professores que acompanham sua formação. A professora Me. Alessandra Cristina Medeiros Alves destaca a participação de Marcos nas atividades acadêmicas e sua disposição em contribuir com o aprendizado coletivo.
“Ele é um aluno comunicativo, muito organizado, sempre solícito com os colegas e participativo nas minhas aulas, demonstrando curiosidade e interesse pelos assuntos discutidos. Sempre muito educado comigo e com todos!”, relata.
Atualmente, Marcos desenvolve seu Trabalho Final de Graduação (TFG) com a proposta de uma escola inclusiva. O projeto aproxima sua formação acadêmica de uma temática que também atravessa sua própria experiência, propondo uma reflexão sobre o papel da Arquitetura na construção de ambientes educacionais mais acessíveis e acolhedores.
Para a professora Alessandra, a escolha do tema evidencia como a Arquitetura pode contribuir para transformar a maneira como os espaços são pensados e vivenciados.
“É um tema muito significativo, que nos convida a refletir sobre como a arquitetura pode contribuir para uma educação mais acessível, acolhedora e respeitosa com as diferenças”, destaca.
A docente também ressalta que acompanhar a trajetória do estudante tem sido uma experiência de aprendizado mútuo, na qual o conhecimento ultrapassa a relação tradicional entre professor e aluno.
“Ao mesmo tempo em que contribuo para sua formação, também aprendo muito com ele. Sua vivência, suas reflexões e a maneira como participa do processo de aprendizagem me mostram, na prática, que a educação é uma troca constante e que sempre temos algo novo a aprender uns com os outros”, compartilha Alessandra.
Inclusão também é construir vínculos

Ao refletir sobre sua experiência, Marcos deixa uma mensagem que merece atenção de toda a comunidade acadêmica.
Para ele, uma universidade verdadeiramente inclusiva precisa manter um diálogo constante com os estudantes autistas, compreender suas experiências e acompanhar não apenas o desempenho acadêmico, mas também a qualidade das relações construídas durante a formação.
Sua percepção reforça que a inclusão é um processo contínuo, que exige escuta, sensibilidade e participação coletiva. Mais do que oferecer condições de acesso, é necessário criar ambientes nos quais cada estudante possa se sentir parte da comunidade.
Essa visão também é compartilhada pela professora Me. Beatriz Bocha, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo do UNISAL Americana. Para ela, a trajetória de Marcos reforça a importância de uma formação que reconheça as particularidades de cada estudante e valorize suas potencialidades.
“No UNISAL, acreditamos que a verdadeira inclusão acontece quando cada estudante encontra um ambiente que o acolhe, respeita suas particularidades e oferece condições para desenvolver todo o seu potencial durante a trajetória acadêmica. Nosso compromisso vai além de garantir acesso à educação, buscamos promover pertencimento, escuta, apoio e oportunidades”, afirma.
A coordenadora também destaca que a diversidade contribui para enriquecer as experiências de toda a comunidade acadêmica, ampliando perspectivas e fortalecendo os valores que orientam a formação salesiana.
“Sua caminhada nos inspira e mostra que a diversidade enriquece o ambiente universitário, amplia nosso olhar sobre o mundo e fortalece nossa missão salesiana”, acrescenta Beatriz.
Marcos também chama a atenção para um equívoco frequente sobre o autismo: a ideia de que pessoas autistas e não autistas são profundamente diferentes umas das outras.
Seu relato convida a sociedade a enxergar, antes de qualquer diagnóstico, a pessoa, seus interesses, suas capacidades, suas dificuldades e sua individualidade.
Uma nova etapa, sem deixar de ser quem é

Agora, próximo de concluir a graduação, Marcos olha para o futuro com expectativas que vão além da carreira profissional.
Ainda não definiu se seguirá uma área específica da Arquitetura ou se buscará outros caminhos de formação. Entre seus objetivos estão aprender a dirigir, cozinhar de maneira independente e administrar melhor suas finanças.
São planos que fazem parte de um desejo maior: conquistar autonomia e construir uma vida na qual possa fazer suas próprias escolhas, sem precisar abrir mão de sua identidade para ser socialmente aceito.
Ao avaliar sua passagem pelo ensino superior, reconhece que a experiência exigiu amadurecimento e o ajudou a se tornar um adulto mais responsável.
Para a professora Beatriz Bocha, a proximidade da conclusão do curso também representa um momento de reconhecimento da dedicação e do crescimento de Marcos ao longo da graduação.
“A chegada ao último semestre é um marco significativo na vida de qualquer estudante, e acompanhar a trajetória do Marcos tem sido motivo de grande orgulho para professores e colegas. Ele representa uma história de dedicação, crescimento, talento e perseverança”, destaca.
A professora Alessandra também celebra essa etapa e reforça a importância de continuar incentivando os estudantes a reconhecerem suas capacidades e perseguirem seus objetivos.
“Acredito que a inclusão se constrói quando reconhecemos as potencialidades de cada pessoa e criamos oportunidades para que todos possam aprender, participar e realizar seus sonhos”, afirma.
Sua trajetória também mostra que histórias de inclusão não precisam ser contadas apenas a partir da superação individual. Elas precisam abrir espaço para reflexões sobre as barreiras que ainda existem e sobre a responsabilidade coletiva de construir ambientes mais acolhedores.
Na Arquitetura, cada projeto começa com uma ideia e se desenvolve a partir da compreensão dos espaços e das pessoas que irão ocupá-los. Na vida, talvez não seja tão diferente. Construir uma sociedade inclusiva exige reconhecer que ninguém deveria precisar mudar quem é para encontrar seu lugar.
E, para os estudantes autistas que sonham em ingressar no ensino superior, Marcos deixa uma mensagem que sintetiza sua maneira de enxergar o mundo:
“O mundo é cheio de mudanças, mas mudanças não devem te mudar, não se esqueça de ser você, pois você é capaz de mudar o mundo.”