VOLTAR PARA NOTÍCIAS 25 de setembro de 2026

Envelhecimento dos professores acende alerta para renovação da docência no Brasil

Pesquisa do Instituto Semesp aponta queda no número de jovens professores e crescimento de docentes com 60 anos ou mais; coordenador do curso de Filosofia do UNISAL analisa desafios e novos horizontes da profissão

Quem serão os professores das próximas gerações? Em meio às transformações provocadas pela tecnologia, pela Inteligência Artificial e pelas novas formas de ensinar e aprender, a educação brasileira enfrenta um desafio que antecede qualquer inovação: atrair jovens para a docência e garantir a renovação dos profissionais em sala de aula.

A segunda edição da pesquisa Apagão dos Professores – O desafio da renovação dos professores no Brasil, realizada pelo Instituto Semesp, chama a atenção para o envelhecimento do quadro docente e para a redução da presença de jovens na profissão. O estudo concentra sua análise no Ensino Médio e acompanha a evolução da renovação dos professores, buscando identificar as áreas mais expostas à possível escassez de profissionais nos próximos anos.

Os números ajudam a dimensionar o cenário. Entre 2015 e 2025, o número de professores do Ensino Médio com até 24 anos caiu 31,1%. No caminho inverso, a quantidade de docentes com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. A taxa de renovação — relação entre a entrada de novos profissionais e aqueles que deixam a carreira por aposentadoria — passou de 0,95, em 2015, para 0,32 em 2025. Na prática, segundo o Semesp, atualmente há aproximadamente um novo professor para cada três que se aposentam.

O cenário também passa pela atratividade das licenciaturas. Dados apresentados pelo Semesp apontam uma retração de 13,5% no número de concluintes desses cursos entre 2015 e 2024. Em outra pesquisa realizada pelo Instituto, com 444 docentes da Educação Básica de diferentes regiões do país, 79,4% dos participantes afirmaram já ter pensado em desistir da carreira.

Mas falar sobre o futuro da docência também significa discutir o papel que o professor ocupa em uma sociedade cada vez mais tecnológica, as possibilidades profissionais abertas pelas licenciaturas e aquilo que continua tornando a educação uma escolha capaz de transformar trajetórias.

Para ampliar essa reflexão, conversamos com Prof. Me. Douglas R. da Silva, coordenador do curso de Filosofia do UNISAL Lorena, sobre o envelhecimento dos professores, a presença da Inteligência Artificial na educação, os desafios para atrair uma nova geração para as licenciaturas e, principalmente, o que permanece essencialmente humano no ato de ensinar.

Professor, em um cenário onde se fala tanto de tecnologia e inteligência artificial, qual insumo humano o professor traz para a sala de aula que nenhuma máquina consegue substituir?

A Inteligência Artificial processa dados e otimiza algoritmos, mas a docência atua no campo da presença, do encontro e da alteridade. O insumo insubstituível do professor é a escuta pedagógica sensível e a capacidade de mediação ético-afetiva. A máquina entrega respostas prontas; o educador ensina a formular perguntas, acolhe o erro como travessia de aprendizagem e desenvolve a reflexão crítica. Nenhuma tecnologia substitui a capacidade humana de reconhecer a singularidade do estudante, de provocar o pensamento autônomo e de oferecer o testemunho vivo do desejo de saber (desejo de aprender).

Essa dimensão irredutível da práxis humana encontra ressonância na encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, na contínua reflexão sobre os limites da técnica. Em comunhão com a ética, recorda-se que nenhum sistema autônomo é capaz de substituir o testemunho moral, o olhar de alteridade e a compaixão que sustentam o ato educativo. A tecnologia pode otimizar processos e organizar informações, mas somente a mediação humana e presencial do professor é capaz de cultivar o discernimento, educar a interioridade e garantir que a técnica permaneça subordinada à inalienável dignidade da pessoa humana. A presença humana não se delega.

Todo profissional de sucesso carrega na memória a marca de um grande professor. Como o senhor percebe o impacto real do educador não apenas na vida do aluno, mas no desenvolvimento da sociedade como um todo?

A docência é a profissão encarregada da gestação do futuro. O impacto do educador opera em duas dimensões complementares:

Subjetiva: ao despertar no aluno o sentimento de pertencimento e a consciência das suas próprias potencialidades.

Coletiva e sistêmica: a educação formal é o principal vetor de mobilidade social e consolidação democrática.

A sociedade não se constrói apenas com infraestrutura material, mas com capital cultural, mediação comunitária e ético-social. O professor atua na base das estruturas sociais, formando cidadãos capazes de intervir criticamente e transformar a realidade local e global.

Apesar dos desafios e da desvalorização histórica que o país enfrenta, quais são as maiores alegrias e gratificações que fazem alguém olhar para trás e dizer: “valeu a pena escolher ser professor”?

A grande gratificação da docência reside na metamorfose do outro, no instante em que a incompreensão cede lugar ao estalo da descoberta. Vale a pena quando percebemos que fomos ponte para que um estudante acessasse espaços que antes pareciam inalcançáveis, seja na universidade, no mercado de trabalho ou no pleno exercício de sua cidadania.

Trata-se do orgulho do tecelão que contempla a autonomia da obra final: saber que a autonomia conquistada pelo aluno carrega a marca discreta da nossa dedicação. A vida tem a cor que você pinta, nos ensinou Padre Mario Bonatti e, com toda licença ao meu querido Padre Mário, eu diria que o professor é aquele que, mesmo em tempos cinzentos e desafiadores, insiste em apresentar a diversidade de cores e horizontes possíveis para a vida de um jovem.

Há quem pense que a licenciatura se resume apenas a dar aula tradicional no formato antigo. Quais são os novos campos de atuação e as oportunidades reais que se abrem para quem se forma hoje nessa área?

A licenciatura extrapolou os limites da sala de aula tradicional. O profissional formado na área Filosofia, História, Pedagogia e demais licenciaturas desenvolveu competências de mediação de conflitos, design instrucional e articulação conceitual altamente valorizadas no cenário contemporâneo:

EdTechs e Indústria Educacional: produção de conteúdos digitais, curadoria pedagógica e arquitetura de aprendizagem.

Espaços Não Escolares: museus, ONGs, projetos de responsabilidade social e iniciativas comunitárias de pacificação e sustentabilidade.

Ambiente Corporativo: treinamento, desenvolvimento humano, gestão do conhecimento e facilitação de dinâmicas de inovação.

Consultoria e Psicopedagogia: acompanhamento de percursos individuais de aprendizagem e inclusão.

Se o senhor pudesse conversar olho no olho com um jovem que está indeciso no momento do vestibular, pensando se deve ou não cursar uma licenciatura, o que diria para convencê-lo de que investir na docência é investir no próprio futuro e no do país?

Eu diria: se você busca uma trajetória que faça sentido e que dialogue com as grandes transformações do nosso tempo, a licenciatura é o campo por excelência. Escolher a docência não é se resignar ao passado, mas assumir o protagonismo da reconstrução do país.

Diante de uma sociedade em transição demográfica e tecnológica, o licenciado será o profissional mais estratégico para mediar o conhecimento, formar redes de diálogo e promover a inovação social. O país precisa da sua energia juvenil para reinventar a escola e garanto: poucas escolhas oferecem a certeza de que a sua existência deixará uma marca concreta no mundo.

Uma pesquisa recente do Semesp apontou um dado impressionante: entre 2015 e 2025, o número de professores com 60 anos ou mais mais do que dobrou, enquanto o contingente de jovens até 24 anos despencou 31,1%. Como o senhor analisa essa inversão na pirâmide etária dos docentes no Brasil?

Este dado do Semesp escancara um crítico apagão docente iminente, fruto de uma crise estrutural de atratividade da carreira. O envelhecimento dos professores traz uma bagagem inestimável de repertório e maturidade, mas a queda dramática de jovens gera um hiato intergeracional preocupante. Para reverter essa pirâmide, é urgente articular três frentes propositivas:

Valorização Material e de Carreira: salários iniciais competitivos com outras graduações e planos de cargos bem definidos.

Reformulação da Formação Inicial: licenciaturas alinhadas às metodologias ativas, à inclusão e às tecnologias, superando cursos puramente teóricos ou EAD desprovidos de prática reflexiva.

Bolsas e Incentivos Diretos: programas de iniciação à docência fortalecidos com bolsas de permanência, vinculando o jovem à escola pública desde o início da graduação.

Mesmo diante desse cenário adverso que afasta novos talentos, o que faz com que a docência continue sendo uma das profissões mais nobres e essenciais para a sociedade?

A docência permanece central porque é a matriz de todas as demais profissões. Sem o professor, não há o médico, o engenheiro, o jurista ou o cientista. Em tempos de fragmentação da informação e bolhas digitais, a escola é o espaço democrático por excelência onde o indivíduo aprende a conviver com a diferença, a fundamentar opiniões em evidências e a exercitar a ética coletiva. Ela é o antídoto contra a barbárie e o individualismo.

Muito se discute sobre os desafios da profissão, mas a licenciatura também se reinventa. Quais são os novos horizontes e espaços de atuação que se abrem para quem escolhe se formar professor hoje?

Apoiado na filosofia de Martin Buber e na pedagogia libertadora de Paulo Freire, o professor é o sujeito da relação “Eu-Tu”, o agente que institui o diálogo genuíno.

Os novos espaços exigem um profissional polivalente e propositivo:

Gestão da Diversidade e Inclusão: diagnóstico e implementação de práticas educacionais inclusivas em escolas e instituições sociais.

Educação Científica e Ambiental: articulação de projetos transversais de sustentabilidade, cultura de paz e cidadania planetária.

Liderança em Redes e Projetos Comunitários: organização de saberes locais em diálogo com universidades e órgãos públicos para formulação de políticas educacionais territoriais.

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Nesse contexto de mudanças e da necessidade de formação de uma nova geração de educadores, o UNISAL está com inscrições abertas para o Vestibular, com oportunidades também para quem deseja ingressar em cursos de licenciatura. A formação de novos professores ganha ainda mais relevância diante de um cenário que aponta para a necessidade de renovação dos profissionais da educação no país.

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