
Estudo propõe uma “Pedagogia do Discernimento” para orientar o uso da IA nas universidades a partir da ética, da autonomia intelectual e da valorização da pessoa humana
Professores e ex-aluno do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Campus São Joaquim, em Lorena, publicaram o capítulo “Magnifica Humanitas e a Inteligência Artificial: uma pedagogia do discernimento para a formação humana no ensino superior”, que analisa os impactos da Inteligência Artificial generativa na educação e propõe caminhos para que a tecnologia seja incorporada ao ambiente universitário sem deixar de lado a formação integral do ser humano.
Assinado pelos professores Mateus Gomes e Regina Cabette, do UNISAL Lorena, Campus São Joaquim, e pelo ex-aluno do curso de Engenharia de Computação Victor Aarão, o estudo integra a obra Educação, Formação Humana e Políticas Educacionais 9, publicada pela Atena Editora.
A pesquisa parte de uma questão cada vez mais presente nas universidades: diante de sistemas capazes de produzir textos, organizar informações, desenvolver códigos e apresentar respostas complexas em poucos segundos, qual deve ser o papel da educação e da formação universitária?
Mais do que discutir se a Inteligência Artificial deve ou não ser utilizada, os autores defendem que o principal desafio está em formar pessoas capazes de discernir quando, como e por que utilizar essas ferramentas, considerando critérios éticos, acadêmicos e sociais.
Como contribuição teórica, o trabalho apresenta uma “Pedagogia do Discernimento”, estruturada em seis dimensões: intencionalidade, agência investigativa, verificação epistemológica, autoria reflexiva, julgamento prudencial e responsabilidade.
A proposta considera a IA como instrumento de apoio à construção do conhecimento, e não como substituta do processo intelectual do estudante. Nesse sentido, conteúdos produzidos por sistemas de Inteligência Artificial precisam ser verificados, contextualizados e analisados criticamente, mantendo a responsabilidade humana sobre as decisões.
Para o professor Mateus Gomes, coordenador de Extensão do UNISAL Lorena e docente dos cursos de Psicologia, Engenharia Mecânica e Educação Física, a discussão nasceu de reflexões institucionais promovidas pelo próprio UNISAL.
“A ideia do artigo surgiu durante o Encontro de Gestores do UNISAL, realizado em julho em Campinas. As reflexões daquele momento despertaram inquietações sobre os desafios que a Inteligência Artificial apresenta para a educação e, principalmente, sobre como podemos incorporar essas novas tecnologias sem perder aquilo que está no centro da missão educativa salesiana: a formação integral do ser humano. A partir dali, começamos a amadurecer a proposta e percebemos que o discernimento poderia ser uma chave importante para pensar essa relação entre inovação, educação e humanização”, destaca.
A discussão também ganha relevância na formação de profissionais que atuarão em ambientes cada vez mais mediados por sistemas inteligentes. Para a professora Regina Cabette, coordenadora do curso de Engenharia Mecânica do UNISAL Lorena, o avanço da IA exige que a formação universitária vá além do domínio técnico das ferramentas.

“A Engenharia sempre esteve profundamente relacionada à inovação e ao desenvolvimento tecnológico. Com a Inteligência Artificial, entretanto, precisamos avançar para além do domínio das ferramentas. Formar engenheiros para esse novo cenário significa desenvolver profissionais capazes de analisar criticamente resultados, compreender impactos e assumir responsabilidade pelas decisões que tomam. A excelência técnica precisa caminhar junto com a ética, o discernimento e o compromisso com a sociedade”, afirma.
A participação de Victor Aarão, ex-aluno do curso de Engenharia de Computação do UNISAL e atualmente AI Manager na Lifetime Investimentos, aproxima a discussão acadêmica da realidade profissional. Na empresa, ele lidera iniciativas de Inteligência Artificial desde a concepção até a aplicação prática.
“A Inteligência Artificial avança em uma velocidade impressionante, mas capacidade tecnológica e discernimento não são a mesma coisa. Um sistema pode recomendar; a decisão final continua sob responsabilidade humana. Quanto mais capazes se tornam os sistemas que construímos, maior é a nossa responsabilidade sobre como são utilizados e quais limites estabelecemos. Participar deste trabalho tem um significado especial justamente por conectar a formação que tive no UNISAL com aquilo que hoje vivo profissionalmente na área de Inteligência Artificial.”

O estudo dialoga com o documento Magnifica Humanitas, além de referenciais da Filosofia da Educação, Ética da Tecnologia, Humanismo e formação em Engenharia. A reflexão defende que o avanço tecnológico precisa estar associado à dignidade humana e ao bem comum.
Nesse contexto, o trabalho também propõe uma reflexão sobre o papel do professor. Em um cenário no qual informações e respostas estão disponíveis de maneira instantânea, a docência ganha ainda mais importância como espaço de mediação, investigação, argumentação, análise crítica e formação da responsabilidade.
Ao aproximar Inteligência Artificial, educação, Engenharia, ética e formação humana, a publicação reforça uma perspectiva alinhada à identidade salesiana: a inovação tecnológica não como um fim em si mesma, mas como uma possibilidade de desenvolvimento quando colocada a serviço da pessoa e da sociedade.
Acesso ao capítulo: Atena Editora – Magnifica Humanitas e a Inteligência Artificial
Obra completa: Educação, Formação Humana e Políticas Educacionais 9