VOLTAR PARA NOTÍCIAS 14 de setembro de 2026

Ex-aluno do UNISAL inicia mestrado em Filosofia na Estônia

Matheus Giusti transforma um sonho cultivado desde a adolescência em projeto acadêmico internacional e destaca a formação no UNISAL e a iniciação científica como partes fundamentais dessa trajetória

Há sonhos que seguem uma linha reta. Outros precisam esperar enquanto a vida abre desvios, impõe prioridades e ensina, no próprio caminho, aquilo que nenhum livro seria capaz de explicar. O sonho de Matheus Giusti pertence ao segundo tipo.

Ex-aluno do curso de Comunicação Social do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Matheus chegou à Estônia, em setembro de 2026, para iniciar o mestrado em Filosofia na Prática, na Universidade de Tartu. A conquista realiza um desejo que o acompanha desde a adolescência: tornar-se professor universitário.

Antes de chegar às salas de aula da universidade estoniana, porém, ele percorreu uma trajetória marcada por tentativas, recomeços, trabalho e perseverança. Em 2019, logo após concluir a graduação, Matheus participou do processo seletivo para o mestrado em Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), mas não avançou na segunda fase.

O sonho precisou esperar. A vida, naquele momento, pedia que ele encontrasse um trabalho e ajudasse nas despesas da casa onde morava, em Guarulhos, com a então namorada e hoje esposa. Nesse período, vendeu chocolates em pontos de ônibus, trabalhou como assessor de comunicação freelancer e estagiário na área comercial, até conquistar uma oportunidade no setor de Tecnologia da Informação.

Entre 2020 e agosto de 2026, construiu uma carreira na Codeby, startup de comércio digital posteriormente adquirida pela multinacional Keyrus. Passou por diferentes funções, de assistente de suporte a especialista em soluções de Inteligência Artificial, trabalhando com tecnologias como Microsoft Azure, Copilot Studio, AWS e N8N.

Ainda assim, por trás de cada novo cargo, o antigo desejo permanecia vivo.

“Foi um caminho longo e foi preciso muita fé para confiar que o meu lugar é na sala de aula. O mestrado está começando agora, mas sei que todo o suor, a espera e o preparo valeram a pena”, afirma.

O sonho que resistiu ao tempo

A história de Matheus revela que adiar um projeto não significa abandoná-lo. Entre a primeira tentativa de ingressar no mestrado e a chegada à Estônia, passaram-se cerca de sete anos. Foi um intervalo preenchido por responsabilidades, descobertas profissionais e amadurecimento.

Para ele, cada etapa teve um papel na preparação para o momento atual.

“Dar uma pausa no caminho em direção ao sonho não quer dizer que você desistiu. Às vezes, a vida nos pede outras prioridades, que precisamos atender, mas mantemos o sonho vivo para voltar a percorrê-lo quando entendermos que é a hora”, reflete.

Foi justamente a convergência entre sua formação humanística e a experiência adquirida na área de tecnologia que ajudou a definir o tema de sua pesquisa. No mestrado, Matheus pretende investigar se a Inteligência Artificial está modificando a maneira como as pessoas pensam criticamente e tomam decisões.

O trabalho também busca compreender se a própria tecnologia, quando utilizada a partir de uma estrutura adequada, pode funcionar como catalisadora do pensamento crítico.

“Durante a nossa vida, vivemos muitos dilemas que, de uma forma ou de outra, ajudam a definir o caminho que vamos seguir. A Filosofia nos ajuda a pensar verdadeiramente sobre nós mesmos e sobre nossa relação e participação na sociedade”, explica.

A escolha pela Filosofia

O interesse de Matheus pela Filosofia surgiu ainda no Ensino Fundamental, quando encontrou na disciplina um espaço para refletir sobre dilemas morais que o acompanhavam. Anos depois, durante a graduação, uma entrevista de emprego colocaria essas reflexões à prova.

Em uma dinâmica para trabalhar em um grande banco, o entrevistador perguntou qual era o seu maior sonho. Matheus sabia que uma resposta alinhada aos interesses da empresa poderia aproximá-lo da vaga e de um salário importante para sua família. Mesmo assim, escolheu dizer a verdade:

“Quero ser professor.”

O gerente, surpreso, questionou se ele compreendia que, sendo professor, não trabalharia para o banco. Matheus respondeu que sim. A entrevista seguiu para o candidato seguinte.

“Podemos entender minha ação como ingenuidade, falta de ambição, egoísmo ou idealismo. Seja o que for, eu precisava manter minha postura diante daquilo em que acredito, mesmo que as consequências fossem negativas e impactassem não apenas a mim, mas também outras pessoas que amo”, recorda.

Na Universidade de Tartu, ele encontrou um programa voltado à Filosofia na Prática, abordagem que aproxima o pensamento filosófico das questões enfrentadas por indivíduos e sociedades no cotidiano. A proposta dialoga diretamente com sua forma de compreender a área e com o projeto que pretende desenvolver.

A Estônia também se apresentou como um destino capaz de unir seus dois universos profissionais: a reflexão filosófica e a tecnologia. Reconhecido pela digitalização de serviços e pelo desenvolvimento tecnológico, o país oferece um cenário fértil para investigar os impactos da Inteligência Artificial sobre a sociedade contemporânea.

A iniciação científica como ponte

Se a experiência profissional ajudou Matheus a definir o objeto da pesquisa, foi durante a graduação no UNISAL que ele começou a construir as bases para seguir uma trajetória acadêmica.

As disciplinas de Realidade Social, Política e Econômica, Antropologia Religiosa, Filosofia e Pesquisa Acadêmica contribuíram para ampliar sua leitura de mundo e fortalecer o pensamento crítico. Nesse percurso, ele recorda a participação de professores como Danner Hornich, Camilo Biscalchin e Jane Phenis, além de outros docentes e profissionais que fizeram parte de sua formação.

Matheus também destaca a atuação do professor Francisco Evangelista, que, mesmo não tendo sido seu docente na graduação, aceitou orientá-lo em seu segundo projeto de iniciação científica.

“O BICSAL foi fundamental para eu seguir esse caminho. Durante os projetos, em 2016 e 2018, tive a oportunidade de participar de congressos científicos do próprio UNISAL, além de congressos nacionais e internacionais”, conta.

O Programa de Bolsas de Iniciação Científica do UNISAL (BIC-SAL) tem entre seus objetivos despertar a vocação para a pesquisa, contribuir para a formação acadêmica e proporcionar aos estudantes o aprendizado de técnicas e métodos científicos.

No caso de Matheus, essa experiência ultrapassou os anos da graduação e teve impacto direto na conquista do mestrado. Durante o processo seletivo da Universidade de Tartu, os entrevistadores perguntaram sobre os projetos desenvolvidos no BIC-SAL e solicitaram que ele explicasse a pesquisa realizada em 2018 e fundamentasse suas conclusões.

“Os professores e o BICSAL contribuíram de forma essencial. O programa me ajudou a desenvolver habilidades relacionadas às metodologias científicas e a iniciar projetos de pesquisa ainda durante a graduação. Sou muito grato ao UNISAL, aos professores e aos amigos que fizeram parte dessa caminhada”, afirma.

Para Matheus, o incentivo recebido também foi importante por apresentar a docência sem idealizações, mostrando tanto os desafios quanto o propósito da profissão.

“Os professores me incentivaram a seguir a carreira demonstrando a realidade, para que eu não a romantizasse, mas também o propósito. É como se ser professor não fosse apenas um trabalho, mas um estilo de vida, uma maneira de seguir pela vida.”

Fé, esperança e caminhos possíveis

Agora, no início de uma nova etapa, Matheus ainda não sabe exatamente aonde o mestrado o levará. Sabe, contudo, que deseja aproveitar cada parte da experiência e continuar caminhando em direção à sala de aula.

Aos estudantes que estão começando a construir suas trajetórias acadêmicas e profissionais, ele deixa um conselho nascido não apenas dos estudos, mas da própria experiência: respeitar o tempo, manter a fé e não ter medo de pedir ajuda.

“O caminho nos prepara para o futuro. Se aquilo que percorremos está em sintonia com quem somos, a trajetória será virtuosa. É preciso acreditar que conseguiremos viver nosso sonho, mesmo quando precisamos fazer uma pausa ou quando ele não acontece no momento que desejávamos.”

Matheus também recorda uma frase ouvida de um amigo, durante uma palestra, e que passou a acompanhá-lo:

“Não há ninguém tão pequeno que não possa ajudar alguém, nem ninguém tão grande que não precise de ajuda.”

Entre o Brasil e a Estônia, entre a Comunicação, a Tecnologia e a Filosofia, sua história continua sendo escrita. Não como uma narrativa sem obstáculos, mas como a prova de que alguns sonhos sabem esperar e de que a formação, as pessoas encontradas pelo caminho e as oportunidades de pesquisa podem transformar uma antiga esperança em um novo começo.

“Teremos muitas barreiras durante a vida, independentemente do sonho ou objetivo. A direção que queremos é construída no dia a dia, na jornada que temos conosco e com aqueles que amamos. Espero permanecer com fé e esperança. Foi essa esperança que fortaleceu minha resiliência e me manteve no caminho.”

WhatsApp