"Eu venho de uma família muito humilde que venceu através do esforço, da educação, da transformação. Para você ter noção, o meu pai foi fazer pós-graduação comigo. A gente fez junto, na mesma sala. Então eu acho que quem me viu antes e me vê hoje, olha e fala: 'Essa menina é capaz de qualquer coisa'. E eu acho que é muito isso. Quando a gente se apega aos nossos sonhos, aos nossos objetivos e em quem a gente é de essência mesmo, as coisas acontecem. "

A vida, às vezes, pede pausa. Recomeço. Reconstrução. Para a professora, do UNISAL Americana, campus Maria Auxiliadora, Ana Caroline Nascimento, não foi diferente. Ana precisou parar. Respirar. Recalcular a rota e hoje, ela ocupa o lugar que sempre sonhou: a sala de aula.
Seu sonho sempre foi lecionar. Mas nem sempre a realização dos sonhos tem, tão fácil, espaços abertos em caminhos turbulentos. É preciso coragem para aceitar as coisas que não podemos mudar e fé para seguir em frente. E foi com essa coragem e fé que Ana superou seus limites e hoje, com sorriso largo e fala acolhedora, compartilha conhecimento, acolhe histórias dentro e fora da sala de aula e inspira quem cruza o seu caminho.
Seja na sala de aula ou atuando como assistente de gerência no campus Maria Auxiliadora, Ana atua de forma humana, sensível e profundamente consciente do impacto que a educação pode ter na vida das pessoas, assim como teve em sua vida.

MISSÃO ESCOLHIDA AINDA NA INFÂNCIA
Nascida em família humilde, desde criança, o seu lema sempre foi ensinar. Aos 10 anos, suas alunas eram suas bonecas, que permaneciam enfileiradas, em uma sala de aula improvisada durante a brincadeira de escolinha. A pequena professora era esforçada e nem sempre a lousa, de brinquedo funcionava e – para desespero dos seus pais- as paredes resolviam o problema técnico.
Mais tarde, as bonecas foram substituídas por um aluno especial: o seu irmão, que aos 4 anos, foi alfabetizado pela pequena Ana, que tinha prazer em apresentar a ele o mundo da leitura.
“Eu alfabetizei meu irmão com quatro anos porque minha brincadeira preferida era ser professora.”, relembra.
O ANO QUE TUDO PAROU
Apaixonada por música. Tutora de duas cachorras “malucas” – como ela mesma diz, adepta ao aquarismo, casada e fã de Beatles, Ana aprendeu cedo a valorizar a vida. E valorizando ela entendeu a importância de respirar, respeitar o seu limite e aceitar a pausa que a vida pede.
Sua formação foi construída tijolo por tijolo: graduação em Gestão Empresarial, pós-graduação em Gestão de Pessoas e Negócios, e então o grande salto: o mestrado em Administração na Unicamp, com bolsa de pesquisa, no começo de 2020.
Tudo parecida perfeito, até que o mundo resolveu parar. A pandemia chegou. Os planos foram alterados. O mundo pedia calma, ao mesmo tempo, em que tudo parecia caótico. Entre ruas vazias, portas fechadas, a vida de Ana mudou. O sonho parecia ainda mais distante e no meio de tantas incertezas, a depressão chegou. Chegou forte. Intensa. Chegou pedindo que Ana olhasse para si. Que respeitasse o tempo da vida. Da saúde. E Ana respeitou. Foram anos de tratamento intenso, chegando, inclusive a ser paciente de risco. Foram anos vivendo um dia de cada vez, sem entender, como seria o próximo. Mas ela viveu. Cuidou. Respeitou o tempo da doença, o processo de tratamento e mesmo nos momentos mais difíceis, o desejo de conseguir superar toda dificuldade e lecionar, permanecia aceso, tão aceso que, quando lhe perguntavam onde queria chegar em cinco anos a resposta era certeira: “eu quero dar aula no UNISAL”
“Eu sou uma pessoa que eu acredito que a gente tem muitas missões na vida. Independente de crença ou religião. Acredito também que devemos cumprir essas missões em ambientes que a gente se sente seguros. Aqui (no UNISAL) eu me sinto segura para cumprir minha missão”, relata.
O INÍCIO DA CARREIRA NO UNISAL

Sua carreira do UNISAL não começou na sala de aula. Foi como assistente de curso, ainda no período em que cuidava da depressão. Uma pessoa acreditou no seu potencial e fez um convite: Jéssica Lima, até então, uma antiga colega de estudos e hoje assessora da Pastoral Universitária do Campus Maria Auxiliadora e parceira de trabalho. Ao deixar sua vaga na assistência de curso, para ingressar na Pastoral Universitária, Jéssica lembrou imediatamente da amiga e a incentivou a se candidatar. A oportunidade representava um recomeço e, embora o cargo não fosse o que Ana sonhava naquele momento, ela enxergou ali uma chance de construir seu caminho.
“Quando a Jéssica me enviou a vaga eu logo pensei que precisava abraçar a oportunidade. Fiz a entrevista com o RH e eles tinham preocupação com o salário, que era mais baixo, mas eu quis assumir e falei na entrevista que tinha interesse acadêmico também”, relembra.
Ana entrou no UNISAL ainda em tratamento. Fez o que precisava fazer e a nova rotina trouxe uma melhora significativa no seu quadro.
“O UNISAL me ajudou muito a melhorar. A Jéssica, inclusive, falava para todo mundo que meu interesse era em dar aula. Eu tinha até um pouco de vergonha (risos). E quando o professor Duílio (Fabbri Junior) assumiu a reitoria, ele abriu uma vaga para lecionar na comunicação, que era uma aula para marketing digital. O irmão Victor (gerente no campus na época), sabendo o que eu queria, me incentivou a participar do processo seletivo. Participei e passei. Era para dar aula de marketing digital, um tema que eu sou apaixonada”.
A tentativa deu certo. Ana aceitou o convite certo, na hora certa da pessoa certa. Passou de assistente de curso para Assistente de Gerência – também a convite do irmão Victor e hoje leciona todos os dias da semana, em diferentes turmas.
Ana deu voz à sua paixão. Cumpre com êxito aquilo que acredita ser sua missão e não contém a emoção, quando relembra, que mesmo desacreditando de si mesma em alguns momentos, não deixou o sonho e a essência para traz, tendo sua família como uma grande inspiração.
“Eu venho de uma família muito humilde que venceu através do esforço, da educação, da transformação. Para você ter noção, o meu pai foi fazer pós-graduação comigo. A gente fez junto, na mesma sala. Então eu acho que quem me viu antes e me vê hoje, olha e fala: ‘Essa menina é capaz de qualquer coisa’. E eu acho que é muito isso. Quando a gente se apega aos nossos sonhos, aos nossos objetivos e em quem a gente é de essência mesmo, as coisas acontecem. Por mais que eu desacreditei por muito tempo de mim mesma, a gente tem que encontrar formas ali de se resgatar. E eu consegui”

ENTRE CONQUISTAS E HISTÓRIAS
Ana não só conseguiu realizar o seu sonho, mas também, transforma e incentiva quem cruza o seu caminho. Ana venceu. Venceu a depressão. Venceu o medo. Os obstáculos e a si mesma. Não venceu por vencer. Venceu para cumprir uma missão especial: ensinar. E hoje, no auge da maturidade, entende, que o tempo que dedicou a si mesma, não foi perdido.
“Eu interrompi um tempo da minha vida, mas eu ganhei. Eu ganhei em humanidade, eu ganhei em visão de mundo, eu ganhei na transformação como ser humano, nas coisas que eu valorizo. Eu sei que venci, pois hoje eu estou muito em paz e eu sou muito diferente do que eu era. Aprendi a valorizar tempo de qualidade, minha relação com as pessoas e com isso eu não vejo meus alunos só pelo que eles colocam no papel, no que entregam para mim. Eu os vejo como pessoas, eu os vejo no esforço deles. Então, eu venci”
Ana venceu em cada passo que deu. Como profissional e como mulher. Venceu com o brilho no olhar de quem sabe que faz a diferença na vida pessoas.
“Teve um caso de uma aluna que pediu para eu olhar o currículo dela. Eu olhei e apontei alguns pontos de melhorias. Sentei com ela no final da aula, a gente fez o currículo e dei dicas, caso fosse chamada para entrevista. Ela foi chamada pra entrevista e conseguiu a vaga”, conta orgulhosa.
E o orgulho vem da crença em acreditar que o caminho é ainda melhor quando outras pessoas acreditam e caminham ao nosso lado.
“A gente chega muito mais longe quando tem outras pessoas junto, né? Pessoas boas aqui. E é isso que eu acredito. Minha vontade é de vencer muito mais. E vencer não é conquistar coisas materiais, porque eu acho que isso é tudo passageiro, tudo fica, mas é vencer em transformar cada vez mais a vida das pessoas e elas também através disso transformarem as minha, a minha. Isso que me realiza”, finaliza
