VOLTAR PARA NOTÍCIAS 01 de junho de 2026

“Ser um honesto cidadão digital exige humildade, coragem e misericórdia”

Ex-aluno do UNISAL, hoje colaborador do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé, analisa a encíclica Magnifica Humanitas e o que ela exige da sociedade e universidades

Foto: ©VATICAN MEDIA

A publicação da primeira carta encíclica do Papa Leão XIV marca um novo capítulo na reflexão da Igreja Católica sobre os desafios contemporâneos. Intitulada Magnifica Humanitas, a encíclica foi assinada em 15 de maio, data que remete ao aniversário da histórica Rerum Novarum, e apresentada oficialmente no Vaticano em 25 de maio.

O documento propõe reflexões sobre a dignidade humana, a tecnologia e os caminhos para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Para compreender os principais pontos da nova encíclica e seus impactos para a Igreja e para a sociedade, o UNISAL conversou com o Pe. Pedro André, SDB, salesiano da Inspetoria Salesiana de São Paulo, membro do Setor de Comunicação Social da Sede Central dos Salesianos, em Roma, e colaborador do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé.

Pesquisador da relação entre inteligência artificial generativa e comunicação pastoral, o sacerdote compartilha sua análise sobre os temas abordados pelo Papa Leão XIV e os desafios que emergem diante das transformações tecnológicas do nosso tempo.

Acompanhe o bate-papo:

Qual foi sua primeira reação ao tomar conhecimento do tema ou ler a Encíclica Magnifica Humanitas? Havia algo que senhor esperava encontrar e que o surpreendeu?

Antes de iniciar, agradeço o convite do UNISAL, onde já fui aluno quando cursei filosofia e teologia e onde já atuei na pastoral. Aceitei-o com alegria, pois atualmente estou escrevendo uma tese de mestrado, justamente sobre inteligência artificial generativa e pastoral da comunicação salesiana.

Ao ler a Magnifica Humanitas, senti duas coisas: alívio e urgência. Alívio, porque a Igreja continua o caminho já iniciado por Francisco ao tratar da inteligência artificial na perspectiva da paz e da “sabedoria do coração”, recolhendo agora numa encíclica de conjunto muitas intuições dispersas em mensagens e notas como a Antiqua et nova. Urgência, porque o texto deixa claro que estamos diante de uma mudança de época, não apenas de uma mudança de ferramentas, e que a fé cristã precisa entrar seriamente no discernimento das novas formas de poder ligadas aos dados, aos algoritmos e às plataformas. O que mais me surpreendeu foi a clareza com que o Papa articula questões muito técnicas, como modelos de IA generativa, vigilância algorítmica, concentração de dados, com os grandes princípios da Doutrina Social, como dignidade humana, bem comum e opção pelos pobres. Percebi um eco muito forte de quatro princípios de Evangelii gaudium aplicados ao digital: o tempo é superior ao espaço, a unidade prevalece sobre o conflito, a realidade é superior à ideia e o todo é mais do que a parte, como chaves para julgar eticamente o desenvolvimento da IA

  • ⁠A encíclica vem sendo chamada de ‘a Rerum Novarum da era digital’. O senhor acha essa comparação adequada? Em que medida a Magnifica Humanitas representa uma ruptura ou uma continuidade em relação à tradição da Doutrina Social da Igreja?

A comparação com a Rerum novarum me parece, em parte, adequada, desde que não seja usada como um slogan vazio. Leão XIII escreveu diante da revolução industrial, quando a máquina reconfigurava o trabalho, a cidade e as relações sociais; agora a Magnifica Humanitas se coloca diante de uma revolução digital em que dados e algoritmos organizam o tempo, a atenção, o trabalho e até a política. Em ambos os casos, a Igreja intervém quando percebe que os mais vulneráveis, operários então, hoje trabalhadores de plataforma, jovens hiperconectados, povos periféricos, correm o risco de serem reduzidos a “material descartável” de um sistema econômico e tecnológico. Vejo mais continuidade do que ruptura na Doutrina Social da Igreja. A encíclica atual retoma a linha que vai de Inter mirifica e Communio et progressio até os documentos sobre ética nas comunicações e na internet, que sempre insistem no caráter ambivalente dos meios, na centralidade da pessoa, na verdade como bem comum e na responsabilidade social dos comunicadores. Ela amplia esse horizonte ao dialogar com reflexões recentes sobre IA, capitalismo de vigilância e regulação global e também com o esforço da própria Congregação Salesiana de pensar o “habitat digital” como lugar teológico e pastoral

  • ⁠O Papa afirma que a IA ‘não pode ser considerada moralmente neutra’  e que todo sistema tecnológico traz consigo as visões de quem o projeta. Como a teologia moral responde à tese, muito difundida na engenharia e na ciência da computação, de que a tecnologia é apenas uma ferramenta, e que a moralidade depende exclusivamente do uso que fazemos dela?

Não se pode aceitar essa afirmação de maneira ingênua. Toda tecnologia nasce de escolhas humanas, de quem financia, de que problema se quer resolver, de quais dados se usa, de qual modelo de negócio se adota  e essas escolhas inscrevem nos sistemas uma determinada visão de pessoa, de sociedade e até de verdade. No caso da IA, por exemplo, não é indiferente se ela é desenvolvida para acelerar a pesquisa médica ou para automatizar a seleção de alvos militares, como o sistema “Lavender” usado em cenários de guerra.

Autores que dialogam com o magistério apontam que a IA “sabe, mas não conhece”: processa bilhões de dados, calcula probabilidades, imita a linguagem humana, mas não tem consciência nem experiência de sentido. Justamente por isso a responsabilidade ética nunca pode ser atribuída à máquina, mas às pessoas e instituições que a concebem, treinam, comercializam e utilizam, num contexto marcado pelo “capitalismo de vigilância”, em que dados comportamentais são transformados em mercadorias para previsão e manipulação de condutas. A teologia moral, aqui, retoma a crítica às “estruturas de pecado”: não basta julgar a intenção individual; é preciso discernir os sistemas técnicos e econômicos que condicionam nossas escolhas, para convertê‑los em estruturas de bem comum.

  • ⁠A encíclica exige uma cadeia clara de responsabilidades no desenvolvimento e uso da IA, o que ela chama de ‘accountability’ (responsabilização?) . Em sua experiência, quais são os principais obstáculos culturais e institucionais para que essa responsabilidade seja assumida de forma concreta, e não apenas declarada nos documentos?

A exigência de uma cadeia clara de responsabilidades é um ponto central da encíclica, em sintonia com Francisco quando insiste na necessidade de “controle humano significativo” sobre os processos decisórios da IA. Mas, na prática, esbarramos em obstáculos culturais e institucionais importantes.

Culturalmente, vivemos uma espécie de fascínio pelo “mito da máquina”: tende-se a acreditar que algoritmos são mais objetivos, racionais e eficientes do que pessoas, o que favorece o delegar decisões graves, inclusive sobre segurança, crédito, vigilância a sistemas opacos, ou seja, não se revelam totalmente.

Institucionalmente, a concentração de poder nas grandes plataformas e empresas de tecnologia gera uma assimetria radical: elas sabem praticamente tudo sobre nós, enquanto nós sabemos muito pouco sobre como seus sistemas funcionam e com quem partilham os nossos dados. Mesmo as tentativas de regulação, como a legislação europeia de IA (cito isso pois faz parte da pesquisa e da realidade onde vivo hoje), enfrentam o lobby e a capacidade técnica dessas corporações, que frequentemente capturam a própria agenda regulatória. Também em instituições educativas e eclesiais, muitas vezes nos contentamos com políticas e documentos bem redigidos, mas carecemos de formação, de critérios claros e de processos de avaliação que tornem efetiva a responsabilização por escolhas tecnológicas concretas.

  • ⁠A encíclica retoma com força a centralidade do trabalho como expressão da dignidade humana e alerta para o risco de que a automação paradoxalmente ‘desqualifique trabalhadores e os relegue a funções rígidas e repetitivas’. No Brasil, onde a precariedade do trabalho já é estrutural, como o senhor avalia esse cenário para os trabalhadores de menor qualificação e para os jovens que estão buscando oportunidades para entrar no mercado de trabalho?

Quando a encíclica alerta para o risco de a automação “desqualificar os trabalhadores, submetê-los a uma vigilância automatizada e relegá-los a funções rígidas e repetitivas”, toca num nervo exposto da realidade brasileira. Em um país onde a precariedade já é estrutural, com grande peso de informalidade, trabalhos de plataforma, terceirização e subempregos, a introdução de sistemas de IA na logística, no comércio, nos serviços e mesmo na agricultura tende a atingir em cheio os menos qualificados e os jovens em busca do primeiro emprego.

Os estudos mostram que a mesma IA que pode liberar tempo humano de tarefas pesadas também pode intensificar a exploração, por meio de monitoramento constante, metas inatingíveis e decision-making algorítmico que não leva em conta a dignidade do trabalhador. A Doutrina Social da Igreja, desde Rerum novarum, insiste no trabalho como caminho de humanização e participação social; hoje isso implica lutar por políticas públicas de educação técnica e humanística, de proteção social e de requalificação contínua, para que ninguém seja condenado ao descarte digital. Do ponto de vista salesiano, significa investir na formação profissional dos jovens dentro do “ecossistema educativo” do Sistema Preventivo, ajudando-os a desenvolver competências digitais críticas, mas também virtudes de responsabilidade, solidariedade e criatividade empreendedora.

  • O Papa dedica uma seção inteira à ‘verdade como bem comum’, alertando que a desinformação amplificada por algoritmos representa uma ameaça à própria democracia  . Como o senhor vê o impacto da desinformação digital sobre os direitos humanos no Brasil e na América Latina?

Quando o Papa fala da “verdade como bem comum”, ele recolhe uma longa tradição do magistério sobre comunicação, que sempre viu nos meios tanto um serviço potencial ao bem comum quanto um risco de manipulação e injustiça. A novidade hoje é a escala e a velocidade com que a desinformação circula, amplificada por algoritmos desenhados para maximizar engajamento, explorando polarizações e teorias conspiratórias. Na América Latina, experimentamos isso em temas como eleições, pandemia, violência, direitos indígenas e ambientais, nos quais campanhas de desinformação digital alimentam ódio, justificam violações de direitos humanos e enfraquecem instituições democráticas. Ao mesmo tempo, a “economia da atenção” torna difícil praticar a escuta, o discernimento e o diálogo, pois tudo tende a ser reduzido a conteúdos rápidos, emocionais e fragmentados. Por isso, a defesa dos direitos humanos hoje passa também pela luta por um ambiente comunicativo mais justo: com pluralismo, transparência algorítmica, combate a discursos de ódio e formação crítica para que as pessoas possam exercer o seu direito à informação em consonância com a verdade, a justiça e a caridade.

  • O Sistema Preventivo de Dom Bosco se ancora em três pilares: Razão, Religião e Amorevolezza. Quando o Papa alerta contra a ‘imitação artificial da relação de cuidado’ promovida por sistemas de IA  e defende a educação para a ‘higiene da atenção’ e o ‘pensamento crítico’, parece haver um eco muito direto da pedagogia salesiana. Na sua visão, o Sistema Preventivo tem algo específico e insubstituível a dizer para a educação na era da IA?

Quando o Papa critica a “imitação artificial da relação de cuidado” e pede uma educação para a “higiene da atenção” e para o pensamento crítico, eu ouço claramente um eco do Sistema Preventivo de Dom Bosco. A IA pode simular escuta, empatia e companhia, mas trata-se de uma simulação sem consciência, sem experiência de vida, sem capacidade de compreender o silêncio, o sofrimento ou a esperança do outro. O Sistema Preventivo, ao contrário, nasce de uma presença real, amiga, que une razão, religião e amorevolezza em um ecossistema educativo de família, pátio, escola e paróquia. Na era digital, isso significa duas coisas: primeiro, continuar a oferecer espaços físicos de encontro, jogo, estudo e oração, onde os jovens experimentem relações gratuitas e fiéis que nenhum chatbot poderá substituir; segundo, acompanhá-los nas suas presenças on‑line, ajudando-os a discernir conteúdos, gerir o tempo de tela, cultivar a atenção e usar as redes como lugar de protagonismo e serviço. O Sistema Preventivo torna-se assim uma “gramática” muito concreta para educar à liberdade no habitat digital, evitando tanto o moralismo quanto a ingenuidade tecnológica.

  • Dom Bosco definia sua missão educativa em formar ‘bons cristãos e honestos cidadãos’. A encíclica apela para que as universidades formem profissionais capazes de discernir o uso da tecnologia à luz de valores e do bem comum. O que significa hoje ser um ‘honesto cidadão digital’? Que competências e virtudes isso exige, para além das técnicas?

Bons cristãos e honestos cidadãos: hoje, isso inclui necessariamente a dimensão digital. Um “honesto cidadão digital” é alguém que reconhece que as suas escolhas on‑line, o que publica, partilha, curte, financia, têm impacto real na vida dos outros, e por isso orienta a sua presença pelas virtudes da verdade, da justiça, da temperança e da solidariedade. No plano das competências, isso supõe capacidade de verificar informações, compreender minimamente como funcionam algoritmos e modelos de negócio das plataformas, proteger a própria privacidade e a dos outros, dialogar com respeito com quem pensa diferente e mobilizar-se em favor de causas de bem comum. No plano das virtudes, exige humildade para reconhecer limites, coragem para denunciar injustiças, misericórdia para não transformar o erro do outro em linchamento permanente e perseverança para praticar um estilo comunicativo coerente com o Evangelho também quando isso custa likes.

  • ⁠A encíclica convoca explicitamente as ‘universidades e instituições acadêmicas’ a dar novo impulso aos princípios da Doutrina Social. Na prática, como essa convocação chega ao projeto pedagógico a cursos de Engenharia, de Direito, Psicologia ou de Administração? O que precisa mudar ou ser incrementado na cultura curricular das IES católicas?

A encíclica é muito explícita ao convocar “universidades e instituições acadêmicas” a darem novo impulso aos princípios da Doutrina Social, e isso vale de modo especial para as IES católicas. Na prática, isso significa que cursos de Engenharia, Direito, Psicologia ou Administração não podem tratar a tecnologia, e a IA em particular, como algo neutro ou apenas técnico, mas devem integrar nos seus projetos pedagógicos a reflexão antropológica, ética e social. Já existem orientações salesianas nesse sentido: os documentos sobre comunicação social e cultura digital insistem na formação de salesianos e leigos para um uso crítico e responsável das tecnologias, na necessidade de compreender o “habitat digital” e de articular comunicação, evangelização e educação num mesmo projeto. Em termos concretos, eu diria que precisamos de disciplinas obrigatórias de ética profissional com base na Doutrina Social, de laboratórios interdisciplinares sobre IA e bem comum, de projetos de extensão que levem a universidade a dialogar com periferias digitais e de uma cultura institucional que avalie criticamente as próprias ferramentas tecnológicas.

  • E uma última palavra: Dom Bosco não recuou diante da Revolução Industrial. Foi ao encontro dos jovens mais vulneráveis e usou os instrumentos do seu tempo para prepará-los para os desafios daquele tempo. O que ele faria, na sua visão, diante desta Revolução Digital?

Dom Bosco não fugiu da Revolução Industrial, ao contrário, foi protagonista, escolhendo permanecer “na vanguarda do progresso”,  para estar onde os jovens estavam: oficinas, fábricas, periferias urbanas e ali construir um ambiente de casa, paróquia, escola e pátio. Fez uso criativo dos meios do seu tempo, fundando tipografia, editora e boletim para formar consciências, difundir boas leituras e mobilizar a sociedade a favor dos jovens pobres. O ambiente digital cria inúmeras conexões, mas não garante relações profundas, porque falta a experiência concreta de estar junto, conhecer‑se e aprender a gerir as diferenças. Uma das grandes chagas contemporâneas é precisamente a solidão que atinge fortemente os jovens, muitas vezes deixados sem adultos significativos e sem comunidades educativas reais. Por isso, Dom Bosco, para agir diante da revolução digital, investiria em reconstruir experiências de vida comunitária, oratório, grupos, comunidades locais, capazes de oferecer pertença, escuta e vínculos humanos consistentes, como antídoto à hipnose digital que empurra alguns a buscar numa IA a companhia que não encontram em pessoas de carne e osso.

WhatsApp