"Se você acredita que pode dar um passo para melhorar a vida de alguém, dê esse passo. Não fique esperando acontecer. Se você pode fazer a diferença, faça agora"
Há pessoas que chegam e mudam o ambiente sem dizer uma palavra. Basta o olhar atento, o sorriso fácil e a disposição para ouvir. Assim é Edmea de Andrade Costa, uma mulher que fez do acolhimento um jeito de viver e de trabalhar.
Aos 62 anos, Edmea carrega quase duas décadas de história no UNISAL Lorena, campus São Joaquim. Atualmente, é no SPA (Serviço de Psicologia Aplicada) que ela exerce, diariamente, aquilo que parece ser sua vocação natural: acolher quem chega, muitas vezes fragilizado, em busca de ajuda.
Mas essa história começou bem antes.
Uma vida que cresceu junto com a missão

Natural de Piquete, no interior paulista, Edmea cresceu em meio à presença salesiana. Quando criança, frequentava atividades organizadas pelas irmãs da cidade, em espaços de catequese, brincadeiras e convivência que, anos mais tarde, se tornariam parte essencial da sua trajetória.
Em 2005, recebeu o convite para trabalhar com jovens em uma cantina vinculada a um projeto social. Ali começou oficialmente sua caminhada profissional no ambiente salesiano. O que viria depois foi uma sequência de desafios e aprendizados.
Ao longo de quase duas décadas, Edmea foi “multitarefa” por natureza. Passou pelas secretarias de Direito, História e Filosofia, atuou na telefonia e no setor de pesquisa. Mas é no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) que sua essência de “escuta sensível” encontra o porto seguro. Embora o sonho de cursar Psicologia tenha sido adiado pelas circunstâncias da vida, Edmea exerce o acolhimento e a escuta humanizada todos os dias, recebendo individualmente cada pessoa e encaminhando-as para o atendimento.
No SPA, ela é a primeira linha de cuidado. Atende desde crianças de 4 anos até idosos centenários. Viu o auge da instituição, sentiu as dores da pandemia e o desespero de famílias que buscavam ajuda em momentos de luto e desestruturação.
“Muitos chegam num estado desesperador. A gente para, pede para sentar, respirar, tomar uma água, o mundo está uma loucura e precisamos acolher cada um em sua individualidade”, relata, com a serenidade de quem sabe que um abraço pode ser o primeiro passo para a cura.
O serviço atende, anualmente, cerca de 4 mil pessoas de toda a região, muitas delas em momentos delicados da vida.
Entre histórias que marcaram sua memória, ela recorda o atendimento a uma família que buscou apoio após a perda de um filho. A irmã mais nova, profundamente abalada, encontrou no acompanhamento psicológico um caminho para elaborar o luto.
“Ela chegou aqui bem assustada e, depois de um trabalho de oito meses, saiu muito melhor”, relembra.
Edmea é a pessoa que acolhe, que está sempre sorrindo, que abraça, que brinca e que, independentemente do que aconteça, está sempre pronta para ouvir.
Acolher também é servir

Se no trabalho o acolhimento é parte da rotina, fora dele também continua.
Há cerca de 17 anos, Edmea atua como voluntária em um oratório salesiano em sua cidade natal, Piquete. Ali, participa de diversas atividades, desde a organização de eventos até o apoio direto às crianças e jovens atendidos.
O espaço recebe crianças de diferentes idades, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social. Aos sábados, após a catequese, o local se transforma em um ambiente de convivência e brincadeiras, o chamado oratório festivo.
Ali, celulares dão lugar a cordas, bolas e jogos coletivos. Crianças correm, brincam de esconde-esconde e convivem em um ambiente que prioriza o encontro e o cuidado mútuo.
“Eu costumo dizer que lá a gente faz de tudo: lava, varre, organiza e também prepara a liturgia. É um lugar onde a gente aprende a servir”, relata.
Durante as férias, o trabalho ganha ainda mais força com a realização da Faislândia: um evento que reúne mais de cem crianças e jovens em atividades educativas e recreativas durante vários dias.
Mesmo com recursos limitados, Edmea descreve o trabalho como um exercício diário de fé e esperança.
“A gente vê e vive um milagre todos os dias“, afirma.
Uma presença que faz diferença
No meio da conversa, Edmea foi questionada sobre como os seus colegas a enxergam. E depois de uma longa gargalhada, ela foi certeira: “não só aqui, mas meus amigos fora do trabalho e minha família me descrevem como uma pessoa presente em todos os momentos. Eu escuto, eu oriento e, se precisar, até chamo para uma conversa em particular”, refletiu.
Seu jeito acolhedor não se limita ao ambiente profissional ou voluntário. Fora desses espaços, ela cultiva amizades e ainda encontra tempo para fazer o que mais gosta: cozinhar e dançar, atividades que refletem seu espírito leve e bem-humorado.
Vinda de uma família numerosa, com seis irmãos, aprendeu desde cedo o valor da convivência e da partilha.
Mas talvez sua maior marca seja a capacidade de enxergar esperança mesmo diante das dificuldades.
Durante a pandemia, acompanhou de perto as mudanças enfrentadas pela instituição e pelas famílias atendidas — desemprego, dificuldades financeiras e perdas. Ainda assim, manteve a confiança de que tempos melhores poderiam ser construídos.
“E agora a gente vai vendo o povo chegando novamente. São novos contratos, novas histórias. A gente vê toda história renovar e a gente acredita que isso vai melhorar ainda mais. É emocionante olhar para o UNISAL e ver esse espaço lotado de pessoas novamente”, diz.
E diante da emoção da conversa, a mensagem foi clara:
“Se você acredita que pode dar um passo para melhorar a vida de alguém, dê esse passo. Não fique esperando acontecer. Se você pode fazer a diferença, faça agora.”
Edmea é luz. É a energia da dança unida à escuta acolhedora. É o tempero de calma entre o caos da vida moderna. É a pessoa que nasceu com a missão de fazer a diferença na vida do outro e sabiamente a cumpre, seja brincando com as crianças do oratório, dançando em um momento de descompressão, cozinhando em um momento especial ou recepcionando de forma humanizada cada pessoa que procura por atendimento.
É a mulher que, na doçura do olhar ou no barulho da gargalhada, muda o dia de alguém e faz, em cada passo seu, jus ao ensinamento de Dom Bosco:
“Amai-vos, aconselhai-vos e corrigi-vos mutuamente, mas não haja nunca entre vós inveja nem rancor.”